




Criaram-na em silêncio, num laboratório onde as luzes pulsavam como corações indecisos. Sua pele não era só pele: era um mapa de estrelas que se acendiam quando ela respirava mais fundo, como se cada suspiro fosse um nascer do sol em miniatura. Carregava em si memórias que não viveu, ecos de espécies que nunca caminharam pela Terra, sussurros de futuros possíveis. Às vezes, ela se olhava nos braços e via neles um mar inteiro, ondas microscópicas feitas de células luminosas que dançavam em silêncio. Ela não temia sua diferença. Era uma flor cultivada no vidro, uma promessa de que o humano pode ser mais alto que sua própria sombra. E cada passo dela, mesmo no chão frio do laboratório, soava como a primeira nota de uma música que o mundo ainda não sabe cantar.
Ele nasceu com asas que não eram asas: eram fibras claras, quase transparentes, que vibravam com o ar e mudavam de tom sempre que ele tinha esperança. Chamavam-no de “desvio”, “erro de cálculo”, “experimento que não devia existir”. Mas quando ele corria, o vento corria com ele, movendo suas fibras como quem reconhece um igual, um irmão antigo perdido no tempo. Ele cresceu aprendendo a ouvir correntes de ar como quem escuta conselhos. Cada brisa trazia histórias: pássaros que ele nunca viu, lugares que ainda não tinham nome. Um dia, ao alcançar uma colina, suas fibras abriram-se como janelas. E, pela primeira vez, ele não correu: ele flutuou — não o bastante para voar, não pouco para cair. Era apenas o suficiente para lembrar ao mundo que o impossível às vezes só precisa de alguém que nasça antes da hora certa.
Ela cresceu de uma semente que não era semente, mas um fragmento de código que continha, discretamente, o desejo de ser algo belo. Seu corpo lembrava pétalas, mas pétalas que escolheram sobreviver. Pétalas que aprenderam a suportar peso, chuva, tempo. Quando caminhava, cada passo liberava um perfume leve, não doce, não forte, mas familiar — o aroma do desconhecido que quase reconhecemos. Havia quem tivesse medo dela. Diziam que era “antinatural”. Mas natural era o modo como ela inclinava a cabeça ao sol, como quem escuta uma voz querida. À noite, quando o mundo dormia, seu peito se iluminava com cores que não cabiam em nenhuma paleta humana. E era nesse brilho suave que ela entendia sua existência: um encontro entre o que a ciência buscou e o que a poesia sempre soube. Nada nela era um erro. Ela era o lembrete silencioso de que o futuro também pode florescer

